sábado, 29 de agosto de 2009

MEMORIAL DE LEITURA

Para retomar os caminhos que me levaram ao magistério, à docência é necessário refazer minha trajetória como leitora e pensar o ato de ler, antes de tudo, como atividade lúdica e prazerosa.

A recordação mais remota que tenho do contato com a leitura são os gibis. Lembro-me de ler os da Turma da Mônica antes mesmo de ser alfabetizada. Passava com avidez as páginas das revistinhas, tentava inferir o que dizia a palavra escrita ao mesmo tempo em que me deliciava com os desenhos e terminava por criar minhas próprias histórias. Isso, porém, não me bastava: compartilhar essas criações era fundamental. Quase sempre havia em casa alguma pessoa disposta a me ouvir, mas se ninguém estivesse disponível, meu cachorro pequinês servia-me de platéia.

Depois entrou em ação a primeira professora de leitura que tive, minha avó materna. Frequentemente, ela se sentava comigo e lia histórias de uma antiga coleção de livros infantis, que meu avô havia comprado para os filhos na década de 50. Encantada pelas narrativas, desejava ardentemente saber ler para, por conta própria, viajar pelos textos. Quando alfabetizada, devorei todos esses livros e, hoje, eles ocupam lugar privilegiado nas minhas estantes. Uma vez ou outra pego um volume e folheio carinhosamente. Essa coleção foi o meu maior estímulo durante o aprendizado da leitura.

Em casa sempre havia os gibis, os livros para crianças. E havia também, enfileirados na estante da sala, bem lá no alto, os livros dos adultos. Ali ficavam enciclopédias, algo de literatura brasileira, algo de literatura estrangeira. Todos se tornaram acessíveis quando descobri que era capaz de alcançá-los, se subisse em uma cadeira.

Assim, quando a professora da segunda série ensinou o que eram sonetos e pediu que a turma copiasse alguns nos cadernos de poesia, não me apertei. Descobri na estante os sonetos de Shakspeare, escolhi três deles e concluí meu dever de casa. O curioso foi que, ao apresentá-la, a professora tenha me pedido para completar tarefa, alegando que havia me esquecido de copiar os títulos dos poemas. Não adiantou dizer a ela que não havia títulos, que no lugar deles estavam números, exatamente do jeitinho como eu registrara em no caderno. Como conseqüência, a nota que recebi não foi das melhores e eu descobri que - ao contrário do que imaginava - as professoras não tinham lido todos os livros do mundo. Por isso, com toda certeza, a biblioteca da escola poderia me oferecer um rol de leituras bem mais amplo do que aquele indicado por elas. Passei a visitar a biblioteca pelo menos uma vez por semana, durante o recreio, para escolher sozinha aquilo que gostaria de ler.

Explorei as bibliotecas das escolas onde estudei e aos doze anos, seduzida pelas capas coloridas de uma imensa coleção, levei para casa muitos clássicos da literatura brasileira. Ainda com olhos imaturos, li Camilo Castello Branco, José de Alencar, Machado de Assis... De Machado, eu não gostei muito (como era difícil entender!), mas Camilo Castello Branco me encantava. Ainda me recordo do quanto me deliciei com Amor de perdição. Interessante é que bem mais tarde, já me preparando para o vestibular, reli esse livro a contragosto, por obrigação, tremendamente entediada. Por outro lado, a obra de Machado de Assis me tomou completamente e ele é, ainda hoje, um de meus autores favoritos.

Por volta dos treze anos, comecei a freqüentar a Biblioteca Municipal e descobri Érico Veríssimo, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos. Um pouco depois, conheci alguns sebos e comecei a compor uma pequenina biblioteca particular com meus autores favoritos.

Na adolescência, passei a integrar um grupo de teatro amador e essa experiência me apresentou um gênero textual que ainda era desconhecido para mim. Tive a partir daí a oportunidade não só de ler, mas também de participar de reuniões para discutir sobre peças de teatro e poemas. Não foram as atividades escolares, mas sim essas reuniões que mostraram o quanto a análise literária é apaixonante.

Não sei ao certo quando e por que decidi me tornar professora, mas tenho certeza de que foram as tardes de sábado dedicadas ao estudo dos textos que pretendíamos levar ao palco que me conduziram ao curso de Letras. Creio que a opção por lecionar tenha surgido baseada na expectativa de que a sala de aula pudesse ser um dos espaços mais adequados ao compartilhamento de um dos meus maiores prazeres: a leitura de textos literários.

Posteriormente, outras razões surgiram, mas isso é assunto para um outro relato.

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